segunda-feira, 12 de outubro de 2009
Dança
da dança estrepitosa, a vi.
Feria o solo do salão com os pés.
Alvacenta era a alba a raiar trás
dela e ela contraste com a luz
no ventre terno e plena... toda,
como nunca.
sábado, 3 de outubro de 2009
Duas Poesias
I - Rex
Um pouco do que nada soube dizer...
Um tanto do que nada disse.
Tão pouco o que em nós resta do ser:
O nome, a palavra e a sombra,
O que por fim, envolve a coisa...
Tudo menos em nós a meiguice,
A verdade guarda-a nos baús de outrora.
Diante tudo quanto mo disse sem falar.
Impossível, entanto, refazer o que faria!
Rejubilar até a velhice.
Pois a avalanche tumultua e cresce no peito...
As palavras agarram-se umas às outras,
Com pressa e medo de jorrar...
Atabalhoa o sentido e desce, vai buscar!
Trás de volta, gira, entontece e alteia...
Os braços enquadram a lua quase cheia,
E a maré é de todo já um ser imenso...
Vive o sangue em minhas veias...
Córrego fiel, murmúrio e cheia,
Febril primavera e frutos na feira.
Que me faz prazenteira a vista
Que minha morte sega e clareia.
Pena que para ti isso se esconde.
Oculta lá e te digo não sei onde,
A profusão dos gestos – incendeia;
O que não me conhece, vê-me feliz:
Onde a ânsia cresce...
Sem pedir licença.
Não te fito, hirto desisto.
O amor é grande e a lua cresce.
Despeja-se sobre mim o peso insone
Que não é mais que uma pena leve.
Ao me chamar de irmão: desconheces-me.
Pudera ao menos me palmilhar o sangue
Roto, rude e coalhado.
Tresmalharam-se ao som dos sinos
As ovelhas que com o coração apascentava.
Ou vibro a lenha plena em fogo:
Sibilante e farto como há por dentro.
E a morte me transtorna o dia...
Toda a natureza se compraz em ser
Toda ela correspondência e guia.
Se não sabe o homem como caminha
A toda a forma reja, amada minha!
Por que esperávamos de si tu e eu?
‘Caso pelo que há de ser... Eterno?
II – Lucis
Minha alma é uma lâmpada
Que se apagou e ainda está quente.
– F. Pessoa.
A vida rubra vibra
E seu ardil oculta.
Murmura sutil e timbra
Ares de água profunda
Que se esvai... Ausculta!
Vida primaveril,
Que se abre e que permuta,
Desabrocha no peito a carne febril,
Corre profusa nesse leito de rio
Até que a morte se faça em leito.
Embalsamadas pedras postas sem jeito,
Pois com jeito já seriam diferentes e falsas;
Fingidas se não fossem o que são, com efeito.
Substituís por carne e células a pulsar
Indo encontro ao peito do macro cosmo
E verás surgir o edifício terno e incerto.
Como que há de vir, perto de longe...
Em uma cela? Com que assombro?
Entre a substância que não cessa...
Porém, não em mim...
Em mim as coisas são ternas,
Não eternas não.
Vivas porque se vão...
Que não estão para além da mão...
Que, contudo, não as capta.
Fogem-se borboletas multicores,
Aos borbotões dos falsos amores,
De tons fluidos e flores alegres...
Tesos músculos sedutores...
Expandindo pela
Pele dimanando em escape
Batimentos de cores doridos
Abandonados à inanição
Bem contritos.
Pobre da alma que só tem ao mundo –
Mudo, cego e surdo!
Aos clamores da multidão.
30 de setembro de 2009.
sábado, 26 de setembro de 2009
Beleza (in diese Schönheit)
Na corrente etérea que flui
Da percussão aérea do nome
Soube da natureza a profunda
Emoção.
Sagrada, a aparição que aos olhos
Fere, tange o diapasão das almas
Das crianças livres: sua estrela é
Qual no peito um vulcão autoevidente.
Não quis traduzir o sentimento
Sublime, o fluxo brilhante que
Pelo sangue flui sem entraves,
Mas oxigenar minha visão.
O vento costeava-me os lados.
Surdo, aturdido pelo intento,
Cruzei os dedos levando-os
Aos céus intensos, acesos.
Vi. Ela brotou tranqüila, lenta.
Acompanhada de júbilo, quieta.
Brilhou concomitante o meu peito.
Quisera expandir.
O ar nele não era suficiente
Para as sinapses intuitivas
Da presença pura e fulgurante.
Quanto de mim foi arrebatado!
Uma visão e não quereria
Com outras compará-la.
Fechei os olhos para o mundo
E a sua lembrança, eloqüente,
Bastou-me década.
Rima sua e profunda.
Da beleza da natura.
Excêntrica, econômica.
Onividente e sábia.
A futura colheita
Dos trigais dourados
Espera o varão industrioso
Que lê no coração da terra
O destino lancinante
Da espécie.
Na aparição, o seu mistério.
Nem mais, nem menos.
Exata equação que o tempo
Propaga e que no coração
Do homem dimana a sensação
De que o pavio é curto
E a expansão é infinita...
Até que volte!
Contrasta. Solve e coagula.
Jugula em si os touros sagrados.
Dá a ela somente o que se pede.
Manda-te teu eu passear
Em busca de si e aproveita.
Na inconsciência permitida
Permuta a morte com a vida.
Vale a pena perpetuar o espetáculo.
Se tudo conserta com a beleza
Em um laço secreto...
Foi, também para mim, desconcertante.
quarta-feira, 26 de agosto de 2009
Balada
Solem et Lunae delendi
Les étoilles etincellants bas a tes pieds quand le ciel lourd – La Lune ;
Ce que je vous dit peut-moi descrire chez le vision de mon bateau ivre.
Exerce isso,
Puro exercício.
Excede ócio,
No que é preciso.
O vento em lufadas,
Cortado pelas cordas
Da harpa que tangia,
Exercia seu influxo.
Sonoro e místico
O dístico viravolta
N’alma minha qual
Rústico torvelinho.
O acústico revérbero
Da corda mi, afiada,
No cimo agudo da
Faca sangrenta...
Corre lenta e luta.
O Sol pára como
Para inspecionar –
Nisso a Lua insta-o:
- Nada fazes? Faze!
- Não, desde que não jaze.
- Sabes o que faço?
- Acaso, é devido a isto...
[Mostra ocultando]
Excitadamente chateado
Aproxima-se na borda do
Horizonte, maior, afetado.
“Graças ao mistério, sou:
Mesmo isto inda que mude.
Não mudo tanto, e regular,
Ela impediu-o de continuar.
Era ao mesmo tempo a voz
De todas as esferas celestes.
Os corpos femininos que as
Cordas tangiam aos largos:
Ainda que te revele, de nada
Adianta se ignorante pensais
Que podeis saber como tudo
Sabemos concluir sem...
- que saibais - completaram.
terça-feira, 18 de agosto de 2009
Oceano noturno
No arcaico e belo vivo quadro grego
Pinto a noite como oceano petróleo.
Que a bravata aberta à caixa do ego,
Ao rico texto com reverência viole-o.
Orfeu, musas olímpicas & Apolo,
Ditos em flechas na aljava & harpa
Suave acompanhe aos dedos da ave
Do Deus o trinado sem embargo.
Harmonia & Mnemosine o levam no colo,
Embalado ao som dos acordes no influxo vocal.
Verbo e Nome unem e a ação ao herói acomoda
A capa, com bordado colorido & fio de Ariadne.
Como limite aurífero o discurso formata a alma,
Tangencia o horizonte e para Dafne faz a moda.
18 de agosto de 2009-08-18;
quarta-feira, 8 de julho de 2009
Vário
Disperso como o pulso antes da morte.
Após seu susto suas pálpebras tremem.
Ferem os olhos e do sangue no homem,
A ebulição no sêmen tal um balneário –
Repleto e vário como contas do rosário,
Guiam à perplexa vida na sina da sorte.
Esplêndido como cometa sem um rosto.
Lancinantes setas tais estrelas deu susto.
Confuso onde não há acordo, o coração,
Estrênuo liga-se no pulso a galope falho.
Tarefa diária levanta o corpo para a ação.
Cada batida de olhos e chama é trabalho.
Tal um vestido feito em pequeno retalho,
Vivo calado com minha lembrança suave.
Com o cajado desenhei em o vôo essa ave.
Não sei se é mesmo horizonte de antanho.
Virá diáfano através do teu olho castanho,
O cometa que reduzirá meu dia em cinzas.
