sábado, 28 de novembro de 2009

Propriedade

A propriedade mesma é pobre

O cão da penúltima casa
quer apenas que eu respeite
o perímetro que ele guarda,
ou seja,
não pise na calçada,
é privativamente circunscrita.

Sua jurisdição.

Entre em casa e feche as portas.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Vestido

Sentada, ao sul do Busto de Tamandaré, entre trezentos e trezentos e sessenta metros, deste marco, em direção às praias do litoral sul, Cabo B. De frente para a rua, de costas para o mar, obstruído contato-contínuo um bar, não olhava para a rua, mas obliquamente e para os lados não fixamente num ponto, uma das formas possíveis de quem está a pensar, revolteando os olhos nas órbitas no horizonte inscrito em ângulo convexo, [a questão é onde e não como, eximo-me então de falar como os seus braços estavam em posição paralela] com algumas pessoas, não tenho certo se foi mesmo na quinta-feira ou na sexta, lembro-me que foi depois de um evento [mas também não posso precisar se esse foi por você presenciado, ainda que houvesse tido termo pouco antes] era uma sexta-feira e agora tenho quase certeza, porque deparara o Bebe Blues &c. fechando um tanto cedo; antes apesar de não teres tu perguntado, e mesmo que não tenhas, antes disto, estava na praia e presenciava movimentos de reconciliação cósmica de um amigo e interlocutor, precisamente sobre lembranças ancestrais e imagens descontínuas, i. é. estáticas, onde soluções de continuidade supõem incógnitas quebras ou um hiato entre, e só assim poderiam ser explicadas, o sono e a vigília; não basta dizer que a percepção dos estados de alma e de suas dimensões naturais e qualitativas, é preciso investigar esse abismo, buscar respostas para imagens primevas, dizer o que é o mar, o oceano [vez por outra opaco, colectividade de coisas que não se pode contar], e o horizonte que separa, porque delimita o céu da terra que, tem de grande berço oceano, mar sem limites; muito do que é visão cinde-, o que não posso prescindir é fotográfica memória, no exacto sentido do termo, já que dentre os movimentos qualitativos de minha visão, devido expansão em direcção contrária pôde, por força harmoniosa se deixar arrebatar graças à precisão iniludível do fio que junta em coincidência possível os limites daquilo que uma coisa é, i. é., a bel... & o b[ruído]m, ‘e que belo vestido portavas’, "quem o saberá?", de havia poucas horas atrás... Isso não é desculpa para não saber o nome do estabelecimento comercial-beira-praia-urbana em que, talvez, poucos instantes possa ter permanecido. Ver é seleccionar. Falo de Uma imagem que se produz no fluir dos filamentos luminosos incidentes na superfície produzindo acústica, direcção, volume &c, ressonância que espraia e re-torna, repaixão e eflúvios que dão conta de figurar a aparência nos detalhes que mais afectam e colidem, não obstante tão somente as ondas fortes terem o carácter suficiente nítido para causar impressões, como o artífice que grava um estatuário íntegro e coerente, que dada à natureza generosa verdadeira daquilo que foca, torna-se capaz de ver sem precisar estar olhando [tenho dúvidas do limite que se possa a dar a expressão “todo o tempo”], quando todo o olhar só tem uma função, o flerte, que é uma confissão, que é uma ênfase, para o que já se sabe, logo, afectação do ânimo êmulo de ter o que dizer, ali no instante em que só se sabe o nome, primeiro indício de trilhas e pontes, ora amplas ora estreitas por onde vectores (sic. Corpos), vias para novos fluxos, odres novos para vinho velho, que ora contém ora escoa. Sendo coados por nossos filtros, nossa tecida veste, que foi cozida pela força-fluxo coesiva [que ao ter consigo prenuncia que é causa sui e de encontros].

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Sons e cordas

Fecho os olhos e ouço o fluxo...
Reflexos luminosos fugitivos
dão lugar a rebatimentos
sonoros que ecoam pelos poros.

Sentidos ativos em contínua seleção
(não se pode querer levar tudo-,
o que seria estupidez ou falta de gosto)
devem re-educar-se, ao que, do contrário,
anularia todo o refinamento sem hierarquizar.

O som me devolve a distância.
A distância que quero manter
das coisas que não importam.

O mundo encontra-se colonizado.
Cores, formas, e soluções...
Onde vai o oceano do desconhecido?

O poeta encontra-se subjugado
na cidade, sob o signo do óbvio.

Quem é que assim o quis?

Liberto-me.

Em cada choque,
sobre cada fluxo,
reitero meu domínio,
senhor do cosmos e
das imagens poéticas.

Libero a energia que é ser
os eventuais córregos.

Verto-os
em transtornos práticos,
devido ao meu caudal.

Vi-a na quinta-feira
de uma semana passada,
creio eu.

Havia vinho
em um copo de plástico
em minha mão esquerda,
[nele cabia o caos íntimo]
assim me recordo;
havia deixado a taça
acomodada em segurança.

Teu olhar revolteava
as órbitas quase estáveis.

Estavas sentada
e isso me dava
certa vantagem
perceptiva
ao captar-lhe o fluxo.

Pelo grande rio
daquela noite
essa imagem ainda flui.

Trazia uma faca atada
aos dentes que impunha silêncio.

Desviava das pedras parcas
dos efluxos vocais pobres.

O que me ia na superfície
do diálogo interno,
dou-me o luxo
de confiar ao não-dito.

Ao que não direi.

É preciso lançar a isca certa.

Pois tudo mais imediato
é engano,
engenho temerário
de quem se compraz
na aparência comunitária
de acordo que as palavras
evocam.

Algo

There are more things


Para ver algo é necessário, antes,
[tê-lo compreendido, ou]
compreendê-lo como tal.

Em língua analítica:
Toi mên esti hórexis ti, hôs anankê,
- anamnêuein toiouton délon.

Senti que entre
o realismo e o idealismo surgirá a chave,
dentre todas,
a que mais se aproxima do gênio,
para quem
o realismo fantástico tem sido
o prenúncio.

Essa chave explicativa
que reservo ao silêncio,
já que é vã a tentativa de profaná-la
com uma denominação incipiente,
provocará a ira de céticos e materialistas que,
obstinadamente,
se limitam em crer naquilo que lhes parece óbvio.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Gimme tha Power

Para Johanna
...

Gente que vive en la pobreza
nadie hace nada porque a nadie le interesa
La gente de arriba te detesta
hay más gente que quiere que caigan sus cabezas
Si le das más poder al poder,
más duro te van a venir a coger,

...

Dame, dame, dame todo el power
para que te demos en la madre
giveme, giveme todo el poder
so I can come around to joder (x2)

Recife

Hell-o-ween
Essa cidade não tem futuro algum.
Uma chuva e vês o que a mantém.
As pessoas que se encontra na rua.
As que não se encontram nela...

Se não fosse por uma deslocada
amiga polonesa, com quem aprendi
que as dívidas cármicas existentes
entre nações podem ser descontadas
via interações individuais
re-presentativas,
essa cidade não teria graça alguma.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

União

Esse "humilde" funcionário da União
não tem do que reclamar.
[Não mesmo]

Na minha profissão todo ócio é produtivo.
[Leia-se nos afetos... dos outros]

Não preciso esperar por um final-de-semana,
[Todo instante é pleno com o olhar-ver-sentir]
nem pela "maturidade" para viver,
[inflexão]
- coisa estúpida.