quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Imagem

Que essa imagem se vá.
E não sobre nem a pá,
com que me enterrem
os que já não me conhecem.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Vaidade

Era preciso concordar com Anaxágoras para que aquele café fosse capaz de aplacar-lhe a sede. A água fervia enquanto revisitava o antigo cânion de sua infância, e o suor da terra fez lembrar o seu. A idéia de que seu corpo fosse o mero coador alquímico da natureza não tinha o apelo capaz de testemunhar contra sua vaidade. Afinal a imaginação de que se gabam os escritores é apanágio da inteligência que no homem dá as mãos à estultícia. Não ousava tomar o café que lhe preparavam. Por ciúme a imagens perenes postou como testemunhas perfeitas sangue, suor e lágrima a ama inexaurível. Apenas o que não tem forma é capaz de reter o sentimento dos entes enquanto jorram. Aquele instante da sua adolescência que, enquanto fase da vida, pode não ter valor algum, foi o divisor de águas. Até então a Morte não o tinha tocado senão como a todos, como um temor frívolo. Exultava na tolice que é sorrir de pedras, plantas e insetos e regurgitar numa inteligência particular. O orgulho herético faz espumar a boca na falta de saliva, assim como cuspir no outro já foi arma de retórica. Eis que o ávido veículo do Rajá dos sentidos rugiu. Rígido, sua orelha em concha captou o sibilante e estridente recurso do pássaro a que os homens chamam gavião. A rajada do vento o envolveu enquanto céu e terra embranqueceram engolfados na anestesia da carne. Estremeceu antes do golpe. A queda foi para ele um deslocamento incorpóreo. Não é o chão um travesseiro de ossos? Por instantes sua atenção foi o eco e ouvir sem ver é como descrevem os fantasmas. Aí Ela teve para com ele um gesto. Chamou a habitá-La. Ela que se escondera nele queria retribuir. Ele desejou-a. Ela que vestiu o mundo. O corpo ávido respondeu por si, ainda é cedo amor. Ela tal uma direção vem do Oeste como o vento frio da tarde. A sua presença espreita pela esquerda, esquiva como nossa sombra por inteiro, regular como nossos hábitos. Formidável encontro. Seu vislumbre abrasador foi o bastante para abrir uma clareira na floresta tenebrosa do amor próprio, a mesquinhez enorme que ele leva dentro. Agradeceu o eloqüente movimento da força impessoal que porta a inflexível intenção. Soube que há uma instituição em que a corrupção é impossível. A partir de então aquele cotidiano arbusto espinhoso tornou-se para ele quase agradável.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Trinta Anos

É mister verdejar os níveos campos
e como seta solar sorver as águas,
salgadas faces de que és o doce espelho,
ó minha alma, ó minha ilustre dama.

Feliz sejais a quem não quebre o lustre.
Antes frugal a lhe perder o solo e lastro.
Assim o caminhante inteiro a meio dia, o céu
divisa em pleno sol no zênite e a pino.

Cavalga a abobada interior e faz o hino.
Verifica o brilho seco de que és a cópia,
nas ínclitas veredas hirtas, incertas
frente a suas incandescentes orbes...

intricadamente concêntricas...

Aí verás os luzeiros de duplas órbitas
se alinharem no mesmo nível.

Suas colunas eretas a fio de prumo,
no âmago deste imenso coração,
por muito que são perdem o rumo...

E a pressa cede ao longânime passo
com que se afoga as dores.

A noite é vil como o aço
que trespassa frio a solidão.

Se mantiverdes a memória das flores
seja este o poço da infinita redenção.

A glória silenciosa que é a de Deus
é o mesmo que para os homens a loucura.

Não a confessem, meus irmãos,
sob pena de ser esta a face
com que vereis à Morte.

E esta é a insígne sorte:
a glória é cara
e tão clara quanto não tem cura.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Íris

Tua ânsia em irada Íris,
fere com ás de espada
quem me fere os astros
e coroa a balaustrada.

Quando partires lírios
vossos jazerão em vasos
de lustrosos alabastros
que choram a cabeleira

de fio solar te trará basta,
qual negra cachoeira
triste em planície cega,

fria, surda e seca poeira
que ao trigo trairá a sega,
ao orvalho beberá a hasta.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Uma geração

Antes de ir à guerra, meus senhores,
gerem seus filhos em vossas senhoras.

A Guerra é a Morte pela Vida.
Os Senhores, os Verdadeiros.
Seus Filhos também belos discursos.
E Vossa é a Pátria,
e a Geração que a Ela se consagra;

O Diadema de Glória
é o Espelho de Tua Realeza.

Com a Graça do Altíssimo,
F.'.

domingo, 16 de maio de 2010

Ars II

Em toda parte a fartura está
sempre em destaque.

Nasce como flecha que parte.
Estilingada lança com arte
a grave forma
e cai ao solo
para que se alce, pérola
de íntegra beleza.

O metal frio domina
e no papel lento dobra
a vereda em esquina,
sublime entalhe da obra.

Tomei à águia em pleno ar
a formosa e leve pena.
Fiz de tudo, ondeei o mar,
dobrei o horizonte,
diferi céu e terra,
à sina do homem, amém;
cingi sua fronte,
e o fiz amar como quem erra.

Não servem as palavras
sem que lhes acompanhe
o espírito.

Vincos de ouro são estrelas,
dobras das vestes dela,
pérolas de seus olhos
livres como que vertem
luzes em vasos.

Rasos para que não ocultem
os meus que a chama em risos
ao enlace a cintura cingem.

Tuas pernas são a vertigem
em pilares...

Teu sorriso é o aroma da manhã.

Exangue de ter se entregue ao céu
ela deita-lhe o peito que é nuvem.

Seco o ânimo singelo
que viceja
no sopro quente do sol.

Fria a Terra Úmida
pelo orvalho
que cobre a manhã
com um beijo.

Vapor morno
que sobe ao alto
graças ao forte
e sublime anseio.

Frater F.'.

sexta-feira, 14 de maio de 2010