segunda-feira, 12 de outubro de 2020

Ilusão

 A ilusão consiste em tomar o filtro pela coisa mesma.

... sombra lacustre

obscuridade propulsora de todos

Prometeu oficiante dos númens,

não por acaso acorrentado - 

na contenção pragmática - 

do verbo ingovernável,

Titã que a palavra não domestica!

Aquele que mais dócil a olímpicos

e humanos seres, fora brilhante e astuto,

na montanha, toca o alto do céu,

estrangeiro divino, cinge de nuvem o mistério!


Quando o humano disser de si rico,

saiba-o pobre, se diz lorde, servo.

Antiga Nota II

 Senhor de todo o desígnio

da criação e da queda

do que vive onividente.

Na face do longânime

também se via a do obstinado

Deus cioso, judicioso,

sob sua coroa observa seu domínio

distribui justiça,

daí se o chamava Júpiter

e a fatalidade,

e então se nomeava Saturno


Louvável é advogar em causa própria

A verdade não se defende por palavras,

é sensível ao coração.

A palavra não é senão sombra

correlativo proporcional

ao verbo e ao gesto.

Antiga Nota

 Nem sei quando escrito foi...

Pude ver em seus olhos que via

o antigo drama

a infatigável chama

afeta-se, move-se, em desordem

deixa-se levar pelo que não se é,

desdém,

o jovem perdia, em êxtase,

se esvaia invisível aflição

Dorme e confunde o sótão

com o porão

Cada um de nós quando sonha é a própria morte.

quinta-feira, 30 de abril de 2020

Patativa

Quisera eu tal Patativa
cantar as coisas do sertão.
Ser as paragens alheias
que aficionam meu coração.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

Carinho de mãe

Ser esta presença toda eterna...
Por isso essa força silenciosa
exime-se de atenção a si
Cada um chame e encontre o que procura

E veja a si nesse espelho
E saia a si assim como veio.
Já veio como o grão centeio.
Uma nota que ao chão toca.
                            [do que não é à pessoa]
E subo a ti como um peixe
a boca exibe
ao limite dágua

E salto...
Ao fogo faço o que a si versa
o universo de minha amada

sábado, 14 de dezembro de 2019

Sophia rediviva

Ego sum qui sum = to sôma heliakon = sat purusha

gnoti seautôi te kai [et sapere aude] sôphrosynê

A única coisa que não perdemos
é aquilo que nunca temos.

Pois, logo que a tenhamos,
a perdemos.

Amor é desejo de algo que nos falta,
e assim como não se aprende
aquilo que de todo alguém ignore,
o que se visa é a beleza mesma
que se viu,
quando não se a vê.

Isto é esquecer que somos esquecidos.
Não ser, não saber,
ser opaco e sem verdade.

Recordar-se a própria indigência,
como condição congênita:
de que seja o esquecimento o corpo
que embota a visão presente.

O juízo que as imagens cambiantes
visa imobilizar, lança-nos fora da clareira,
onde cada coisa se mostra como é: nua,
em sua presença,
quer na voz ou em silêncio.

A presença que nenhuma palavra lavrada traz,
em cuja ausência, não somos.

Verdade é o gozo de alma e corpo,
quando não se separam no ato
e a alguém inflama o espírito.

Secreto rito,
a filosofia.

Fuga do mortal, Sophia, não se a toca,
nem vê,
nem se a perde,
por nunca alguém tê-la.

Sem o véu, mortal algum
um dia a viu,
sem estas vestes,
espere alguém um dia vê-la.

Ela é a verdade
que abre e é o próprio caminho,
inicio, estado e fim:
eterno processo,
com o perdão da expressão.

Qual Dafne para a Apolo,
que era todo alma e furor,
ela toda um corpo inteiro,
cuja canção, o teor nos escapa,
enfeitiça-nos o pobre engenho
e o coração temente cava.


terça-feira, 10 de dezembro de 2019

Persigna

Signatum est
Desatar no coração todo nó 
que velado siga,
em que encoberto persiga,
perdido o senso, a sina,
ou quanto persista alheio ao dom.

Quão mais pesada a sorte, 
mais amada a vida. 
Quão mais pensada a morte,
mais as partes,
as Moirai sentidas.