quinta-feira, 4 de março de 2010

Sit Tibi Scire Satis...







Noite, vou buscar o frio em tuas maneiras.
Ó pássaro sensível e casual que fere o ar
abana-me serviçal, teu corpo é meu leque.

Dorso de rios, filhos luminosos
meu corpo cósmico pontilhais...

Caem da ribanceira do céu
coroados fios
que estico, meço...
Corro a imensa distância
em um lance...
Chego em estilhaço:
cristalino, líquido...
& no centro da amada estrela me refaço.

A luz! Os deuses são minhas crias.
Enquanto minha imaginação retém,
são minhas reféns todas as emanações;
tensões que a minha condição,
em estendido arco o diapasão mantém.

Indiferença para com o Mundo,
Tudo menos o Óbvio;

Minha revolução solar
segue no meu corpo matizado,
na ilha da Ajuda,
cercado de lado a lado,
a água assoma e volteia.

Escrevo como quem esconde os rastros
dos passos das sandálias
quase aladas assemelham
aos horizontes plácidos
estendidos das areias
aos rios que encontram mares,
encimados por vasto dorso,
paleta de céu azul e seus matizes,
nuvens cinza tenazes,
cosmo de pedras brilhantes os ares espelhados,
fios de prata pendem nos abismos
do sideral hangar escuro,
as naus que partem dos olhos
desejam a terra primeira reaver,
enquanto os laços que unem os corpos
fazem a festa dos sons quais luzes
pelos espaços dimanando contrastes
do mel que é o véu surdo
onde a música se faz em silêncio
tremeluzindo das tremelgas e das refregas,
se enclavinhando em sol,
escorrendo pelos mis, sis,
nunca para os vis vasos ocos, ocaso...

Irado, arrepio caminho açoitando as feras.

No tônus do gastrocnêmico músculo
bate o pendão da vitalidade
irradiado pelo coração que me ama.

Paraíso oceânico oscilante em suas vestes.
Dolorosa, quanto mais inflexível, mais amorosa.

Acredito nas Moirai, nas Parcas:
Fiandeira, Distributriz e Inflexível,
forças cósmicas que preconizam o Destino
inexorável e inexcedível,
da vida sentida contida em seus limites,
elas que distribuem as mortes,
as sortes e as partes que cabem a cada um
– alguém possa girar a mão do destino?
Tornar-se o próprio?
Sistema de interpretação global das ações
– manobras de seu centímetro cúbico de chance.

Ordo ab Chaos

Seria o ser humano um ponto de ordem em meio ao caos?
Para responder essa pergunta é preciso refletir,
como hoje percebi,
sobre as relações do Destino com o acaso e a Vontade.
Misturo as coisas que suspeito com a parte delas
numa lição sobre a ancestral Arte da Espreita.
O que vem a ser?
Uma técnica de interpretação do real
e das ações que comporta.
O conhecimento da intenção
ou intuito dos entes:
animados e/ou inanimados.
Intuição da natureza íntima, a volição.
Onde a chave é Vontade e ação impecável.

Mente sonante corpo partes
unem-se por fio de mesma nota.
Rente do metacarpo ao core
faça com que flores manem.
Perfil em paleta multicolor
em resma esférica brota.

Carente e silente o arpão da dor
pela inércia no fito frisa de gelo
o peito outrora contínuo.
Tua rota é sol nascente
aonde vais tu calor buscar
para que te prenhe o dorso,
ao invés de na tolice chafurdar.
Empenha tu o último anel nefando
de tuas não revisadas cadeias,
opressivas opiniões:
tuas nuvens em dias de luz
como sempre são os dias do sem tempo,
aquele para quem a lua é uma célula
que ao girar atomística ulula,
dimana encantos,
nas plenas paragens
que a intuição ao dissolver tempo & espaço,
cisões e hipérboles devolve
porque as abole através de decisões irrevogáveis,
quando traz o senso de ser um
& não receia que a ceia de si
seja o metabolismo de suas próprias idéias,
e que não haja espelho melhor
que o que não se pode ver debaixo a pele,
o véu que cobre os sentidos exteriores
de não ser o que se vê,
entanto que o que configurou
seja nada menos que sua atitude criativa.

Como o sol eu firo o solo com passos leves.

Palmas para o que me projeta no futuro.
Exercitar o seu centímetro cúbico de chance
é tornar-se regente do próprio destino
– como o que sabe de cor executar
os passos conforme a música –
ousa poucas vezes levantar a baqueta
e operacionalizar novos registros.

Amarrações – as conjunções.
I can face your treats
I fancy your threats

Conjugo seus desejos
de acordo com a entonação de teus pedidos,
faço os laços não como quem forja amarras,
porém como quem entre dois corpos
a água une e a eletricidade permite circular.

Necessidade é a força que os deuses temem.
Mais antiga e veneranda
rendem-lhe o respeito com horror.
Eles próprios são seus filhos.

Os atomistas acusavam Acaso (tychén)
e Necessidade (Ananké)
como as molas mestras do cosmos.
O Destino é a síntese das querenças necessárias.
Entre Destino e Acaso,
a Necessidade impele os entes conforme Vontade
– ainda que o termo seja posterior –
a boulesis – a querença, o metabolismo que tudo move,
o espaço vazio...

A matéria...
Essa tendência sem lustre no interior do que é,
isto mesmo, nada mais que tendência...
Deixe os tolos achar que há substância!

As quatro raízes elementais puras,
que se não vêem separadas,
não seriam a matriz nutritiva do fluxo
se não houvesse o que animasse o vórtice
que ao indiferenciado sem limites separa
para tornar possível o número,
a quantidade discreta
e a qualidade das coisas que nascem juntas
da diferenciação interna do todo,
segundo a ordem do tempo que é regido pelo princípio
[o arcaico poder originário – arkhé],
e isto chamamos Justiça (Diké)
que é deusa do Direito Solar,
antiga, irmã de Necessidade (Ananké)
e da Memória (Mnemosina).
A Vitória (Niké) é para a Virtude (Areté)
o que o momento oportuno (Kairós) é para a Fortuna,
e o dia do Nascimento (Nascitur) Solar,
ao coincidirem os planetas de forças inclinantes
(Astra inclinante non determinat),
configuram os ângulos, os vértices, os eixos,
o zênite e o nadir, poente (ponitur)
e o seu início contrário, cíclico, sucessivo,
onde fatos afins não se podem dizer no indicativo,
tudo torna-se eventual,
e o sucesso depende da impecável marca maior do vetor que,
ao alçar vôos sobre os pés graças as asas que vai buscar,
após descer aos infernos (inferus),
leva consigo os seus desta terra devoluta,
dado o abraço que é o enlace,
embebeda como o vinho seco e quente,
que nas veias alteia o melhor ânimo,
qual chama violácea, tremeluzente e firme
movimento espiralado que perfaz cada ponto,
alef em que convergem os demais pontos
e onde o espaço se anula em absurdas absissas
e abissais intersecções que propiciam propulsões
em arcos estilingues catapultando,
sem sair do lugar –
o movimento se diz de muitos modos.

O mal surge da inércia dos sentidos.

O mal é apenas um braço do rio da força.

Precisa ser batido ciclicamente,
senão o mal que é o contentamento
e a satisfação ilusória
desde que a verdadeira não existe),
enraíza.

Não basta mover-se sempre,
para todos os lados,
debater ou gritar, contudo,
acertar sempre mesmo
que impossível seja é a maior divisa.




















Falo de Yggdrasil.
Falo do Ragnarok.
Do Crepúsculo e de todas as terras,
da Raíz Sagrada de onde mana a existência,
sustentáculo e nutriz universal,
coluna esquerda basilar da ordem
e das repetições harmônicas
da diferença na semelhança.

Como um pêndulo de vagas desiguais
o Bem deve submeter o mal,
e o ódio dar lugar ao Amor,
liga insecabile linea.

Assim como dos entes gerados
a corrupção é o mal físico inexorável
que corroi a liga que antes unia,
fator coesivo, ou alma,
no plano moral é a inércia
e o desvio que minam as instituições
que devem ser sacrificadas ao fogo
para que não tomem conta da Raíz Sagrada
de onde mana a vida em abundância,
único ponto onde a Ciência
deveria deter-se e saber a si,
antes de atentar contra o âmbito maior,
a ambiência vital, o Valor insofismável:
a Vida ululante, nossos ânimos e seus humores.

Falarei da personificação da força cósmica Necessidade,
segundo os véus da mitologia grega e nórdica.
Assim as Nove Musas me disseram.
Que das Parcas,
Fiandeira põe o fio no fuso da roca,
roda da Fortuna que gira e estica a corda.
Distributriz mede e pesa todos os atos com justeza
e os distribui nas durações que a extensão do fio
permite e na tensão em que outras sazões aguente.
Inflexível, é sempre representada,
a par de seu instrumento cortante -
as melhores imagens são as de Bergman e Gaiman -
a foice e o olhar de infinito são suas marcas,
seus andrajos pretos são de quem já não se importa
com a alegria das cores.

O mote é o seguinte:
Onde houver Sorte haverá que se diga Partes e Mortes
que dá no mesmo e confere sentido à existência,
faz de Sorte, Parte e Morte uma palavra só,
isso os gregos bem entendiam,
e o que tudo isto quer dizer, para isto,
tinham uma só palavra,
e a força das Moiras era uma só sua imagem.
As partes dão-nas as Moiras,
que compõe corpos tais os lances fazem enlaces
quando os compostos se lançam no mar límpido das horas,
oceano quente & plácido.

Sei que incorro no temerário erro de julgar
o que as aparências mostram
(redundância cíclica, pois phainô,
donde phainómenon indica as coisas
que são já dadas onde aparecem).

Como erudito deito o pau na imaginação.
No papel me reconcilio que ela.

Felizes os intrépidos,
os em quem o espírito
fez morada de futuro.

E eis o seu martírio.

É que ainda que comunguem do lógos,
não ouvem nem escutam a voz interior,
aquela que reúne todas as coisas, homologa.









Falarei agora dos Shensu-Hor,
isto é, dos Seguidores de Hórus.
Quando Osíris, Senhor de Todo o Desígnio,
tem de dobrar-se à Necessidade
da Máscara de sua Divina Pessoa,
o palco cósmico universal se faz
para a encenação do drama cósmico particular,
o sacrifício, e seu corpo,
de uma unidade feito facelas por Seth
que é como Locke,
o terceiro debaixo para cima,
ou o primeiro da segunda tríade,
onde da tensão das partes perdidas
ou do território dos Dois Reinos Egípcios,
do Alto e do Baixo,
é o prenúncio caótico
que prefigura a restauração da Ordem.

Hórus, instruído por sua mão Ísis,
Matriz Universal da Vida,
água do Nilo, filha primogênita de Nuit,
mãe de Noite, Estrelas e Deuses,
derrota Tifão, e Seth,
e recupera as partes perdidas do pai,
sendo elas embalsamadas por sua esposa e irmã;

Μοῦσα, τίς πρῶτος λόγων ἆρχεν δικαίων;
Musa, permite-me ser alguém que por primeiro
ao poderoso discurso fez jus!

Do princípio que é a Arte da Regência eu agora falarei.
Há hierarquias.
A primeira delas é uma divisão simples
entre animados e inanimados.

Para nós, a mais evidente das distinções,
porém, é a que separa os corpóreos dos incorpóreos,
o que nunca se poderia, de fato, desligar,
desde que não há corpo que não seja animado,
e não há movimento
que não perpasse os recônditos espaços
entre as estruturas mais ou menos estáveis,
os átomos que nos configuram perceptualmente.
Mediante isso, os animados
que possuem o magnetismo animal tornam-se,
obviamente os valores primeiros inalienáveis,
que não se trocam por serem valiosa moeda,
muitas vezes e apenas para si,
são os capazes de exercer empuxo sobre os demais espíritos,
de muitos modos.

Os deuses são nossos filhos.

Entanto, eles agem como nossos pais,
porque quando nos cremos sabedores
somos os entes mais estúpidos que pode haver.

Quero promover a eunomia (o amor da ordem).
Querendo ensinar a profissão ao perito.
Ó Menestrel, ó Bardo das Ravinas...
Tenha calma, Senhor Íntimo,
pois de uma alma a outra
o conteúdo não cessa em tornar-se um dia.

Talia si iungere possis

F.'.

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